09/09/2015

nos ímpares do tempo

Dos tantos casos, imagens. Alastram. Estendem. Nos ímpares do tempo. Eco dos fatos. Do sagrado justo ao espírito dorido o ser-tão carrega. Estação da estrela. Rio velho onde o homem colhe flor. Poço de vidas. Casos. Causos. Caos. Orvalho em plena tarde. Mistério. Encanto. Renasce. Frescor do frio que corta. Sobre a mesa um livro com  pingo d'água. Do teto sem goteira. Do céu sem chuva. Magia que brota da terra.  Mistério. O menino não decifrou de onde surgiu a água.  Abriu  a porta. Morcegos saíram do telhado de palha. Do lado externo do portal duas lesmas em procissão. Sentiu vontade de ouvi-las. O canto das cigarras foi mais alto. No ímpar do tempo. Tempo que passa. 

25/08/2015

porque eu sei os defeitos que cometo


Quando eu morava no lugar de pedrinhas de cristal, conheci um velhinho, bem velhinho, desses ranzinzas (tipo eu). Era um pintor. Pintor à moda antiga. Retratista. Copiador. Tinha uma grande virtude em manipular tintas e pincéis com habilidade e maestria. Seus quadros eram fotografias perfeitas. Faltava-lhe, diziam os acadêmicos, um acurado escudo e compreensão da arte, como a arte já se manifestava então, subjetiva e criadora. Só isso tudo que faltava, porque a sua escola era outra. Valorizava a perfeição final de sua obra, valorizando as cores e os traços principalmente. Era objetivo! E eu me lembro de sua ranzinzice (ou ranzinzisse?) e a implicância que lhe pesava, por sua família em teimar arrumar e limpar o seu ateliê. Era uma guerra que durou até o seu fim, imagino, pois não vi. Vi uma escultura feita por ele em marfim. Uma miniatura de um Cristo Crucificado, onde distingui músculos, veias e chagas... Quanta perfeição, eu vi, naquele minúsculo Cristo pregado ao lenho, caprichosamente feito em madeira, onde estava o pedaço de marfim cravejado. Pois é. A minha ingenuidade era tão grande (como ainda é) que eu disse ao Sr. Rubens: “Que belo, que perfeição, que escultura bem feita!” . Ele fez um beiço enorme. Olhos lacrimejantes, porque seus olhos lacrimavam, mas ele jamais usou óculos, me contaram, nem para as minúcias feitas pelos olhos supostamente cansados. Então, ele fez o beiço enorme, me olhou de carantonha, cerrado e frio: “Jamais, Jamais me sinto perfeito, menina! Ou bem feito o que faço. Porque eu sei os defeitos que cometo. E se um dia eu achar que faço e bem feito e perfeito, finalizo a minha obra. Não preciso procurar mais...”

08/06/2014

som

Vento
          sopra
                          cores

...verde, cinza, azul!

pedras,  frescor,  flor.  Vermelha!... Imensidão brejeira.

lírios, campo. Olhai!

singeleza bela...

30/09/2012

Consagração das tintas

Galeria de artes. Recepção. Um guarda-volumes. Um recepcionista. Porta de entrada. Fechada. No teto interno, câmeras de vigilância. No canto de entrada uma mesa e um computador. Nas paredes, telas. No chão alagado de tinta rala, uma geladeira, uma TV, um fogão e instrumentos de percussão. Sobre a geladeira, uma bailarina. Sobre o fogão, uma atriz. Meio aos instrumentos percussivos, um músico. Todos vestidos de branco. Congelados. Sob luzes. Quentes. Às paredes, cores frias. Os visitantes entram. Descalços. Vestem uma calça. De plástico. Preta. Alone vestido de branco carrega uma tela virgem. Tintas e sprays. Percorre o espaço. Despeja tinta nos instrumentos musicais. O músico começa a tocar. Ritmos indígenas. Dirige-se à bailarina. Tinta sobre seus pés. Ela inicia a dança. Passa pela atriz. Desenha uma letra na sua mão. Entrega-lhe um stencil com formas de letras. Ela declama. Alone percorre o espaço. Compõe a tela. Livremente. O pisar dos visitantes borram de tinta a tela. Alone entrega aos artistas sprays, tintas e pinceis. Preenchem a tela. O foco de luz sobre o músico intensifica. A música agita. Ritmos afro. A movimentação acelera. A bailarina roda. A atriz canta. As pessoas percorrem o chão de cores. Quinze minutos. Numa das paredes letrinhas surgem. Projeção de um texto. Um artista brasileiro. Outro estrangeiro. Pela internet assistem. Escrevem. Em tempo e hora. A consagração das tintas. Na terra do sol. Olhos vivos. Das câmeras. Dos homens. Máquinas. A luz sobre o músico diminui. Canções indígenas. Alone coloca a tela sobre o cavalete. Observa. Calmaria. Por quinze minutos. A luz sobre o músico intensifica. Alone compõe. As projeções continuam. Tudo se repete. Dança. Voz. Chão. Paredes. Cores. Respingos. Tinta. Fresca. O público sai. As portas fecham. Os artistas se vão. Deserto. Três dias. As tintas secam. Tumulto. Portas se abrem. Público. Nova tela. Espaço. Novo. Marginal. _______________________________________________________________________________________________ *Inspirado no projeto cultural "Virtualidade-espaço-marginal" idealizado pelo artista plástico Marco Túlio Valadares (set.2009), naquela época (((alone))). Hoje, SOMBRADOSER.

29/09/2012

Com-tons

Paredes azuis. Teto de madeira. Uma cama. Um armário. Uma mesa de vidro. Um banheiro. A menina acordou. Estava sozinha na casinha de adobe. Tonta de sono bocejou. Dormiu mais. Um barulho insuportável de cigarra a fez levantar. Viu formigas enfileiradas saindo da rachadura da parede. Parecia um cortejo fúnebre. Lembrou que era aniversário do enterro do pai. Toda a cidadezinha presente. O acusado fora condenado. Todas as noites ela buscava os santos de devoção. Rogava perdão para o pai, assassino do pai do seu assassino. Recordou do testamento deixado. Uma lágrima caiu. Como que se despertasse de um sono, atravessou a porta do banheiro. Tomou banho. Escovou os dentes. Vestiu-se de preto. Abriu a porta. O sol despontava. Era sábado. Saiu. A barriga roncou bem na hora em que passou perto da lixeira da praça. Um cheiro forte de bosta penetrou seu nariz. Náuseas. Atravessou a praça. Sentou-se no banco debaixo da sombra da mangueira. Ouviu Luiz Salgado na barraca de pasteis: “corre tamanduá, protege os seus filhotes...você vai ter que ser forte como é forte o carcará”. A música veio como um sopro divino, pensou. Aproximou uma mulher alta, couro sobre os ossos, cabelos brancos, olhos arregalados. Com voz rouca disse: “olhe, estou tentando vender esses quadros para comprar as tintas e terminar essa obra inacabada que há anos tento construir como os expressionistas construíam, com abuso de cores." A menina fechou os olhos. "Veja a foto em que me baseio. Foi tirada no Vale do Jequitinhonha.”, continuou a mulher, que espalhou os quadros sobre o chão. “Gosta de algum?" Com cara de bunda a menina permaneceu calada. "Quer comprar?” A pergunta elevou o seu estômago ao céu. Como um jato de tinta velha seu vômito atingiu o quadro. A mulher cuspiu no chão. Limpou a boca. Da voz rouca um trovão: “você destruiu um dos meus maiores sonhos." A menina pensou: "Tudo tem um ciclo. A sua construção não passou de uma ilusão. Uma espera que passou”.

30/01/2010

Tia Lena...

...do bar ao lado da Trupe do Butiquim. Personagem vivo de Palmas! Peça rara a revelar a força de uma mulher que aparentemente frágil, luta pelo pão de cada dia, com a serenidade e paciência dos sábios e a singeleza rara de bons anfitriões que sabem que o que se faz hoje, colhe amanhã. E os burburinhos e ruídos da terrinha do sol, tem sido outros aos meus olhos e ouvidos. Fase boa de garimpo! A começar a avistar o brilho dos cristais...a enxergar com outros olhos. Os outros olhos.

29/01/2010

Trecho II

"Durante os ensaios sempre estive descalça. O figurino eu vestiria apenas na estréia. Nos cinco dias antes da peça, experimentei a roupa, os sapatos, mas não caminhei. Texto aqui, lá, acolá.Era a única preocupação." E.R.O (mar/05)

28/01/2010

Esboço

CRONOGRAMA DE ATIVIDADES
O processo de criação está centrado em três (etapas) eixos, que são:

- Pesquisa de campo (abr/mai-2010)– Mapeamento: idealização; observações a partir de vivências; reuniões e encontros; discussões; ausculta; escolha de elenco; método de trabalho; definição de equipe técnica

- Ensaios e encontros do elenco (abr/ago-2010) – preparação corporal; criação de partitura corporal; criação de personagens e texto; criação de movimento; pesquisa literária; idealização de cenário e figurino. Nesta fase, ensaios cinco vezes por semana, com carga horária de 03 horas/ensaio.

- Fechamento de cenas/ensaios abertos/estréia ( set/nov - 2010): continuação de ensaios; busca de incentivadores; divulgação; fechamento de cenas; estréia.


AGENDA:

17/04/10: primeiro encontro dos participantes com Diego Molina (artista convidado - Diretor)

Pauta:
*conversa sobre a criação
*definição de metas, método de trabalho, agenda, equipe técnica e suas funções

18/04/10 a 02/05/10:
*ensaios dirigidos por Diego Molina
*reuniões do elenco, coreógrafo, cenógrafo, iluminador, figurinista com o diretor


03/04/10 a __ /08/10:
*ensaios


08/08/10:
*cróqui de cenografia e figurino, acompanhado de lista de materiais apresentados ao grupo
*mapa de luz apresentados ao grupo
*andamento da trilha sonora


10/08/10 a __09/10:
*retorno do diretor


- _/10/10 (primeira quinzena de outubro):
*fechamento de cenas
*confecção de cenário e figurino
*registro de fotogafia; filmagen



"(...)SOL NOS OLHOS” traz referência ao universo da capital brasileira ainda em formação que abriga pessoas vindas de diversas partes do país, principalmente do Nordeste. O texto será concebido, a partir do emprego de técnicas do processo colaborativo. Apresenta cinco quadros e quatro personagens que contam histórias e compartilham perguntas sobre o comportamento dos moradores do lugar. A relação entre os personagens se dá entre a busca de um sonho profissional e a realidade arrebatedora de uma cidade onde o calor é intenso, o suor derrama, o corpo exaure. Um lugar, porém, onde o pôr-do-sol é belo, aves diversas passeiam, árvores despencam frutos saborosos e as pessoas, apesar de cansadas, revigoram a cada entardecer. Os personagens são inquietos, questionadores e buscadores de uma história diferente - um ator inquieto, uma dona-de-casa insatisfeita, um contador corrupto e uma professora aposentada. Por trás dos gestos cotidianos, das aparências e idiossincrasias dos personagens, há ideais, frustrações, sonhos e vontade de serem reconhecidos como povo que desbravou caminho e construiu sua própria identidade.
A preparação corporal, está sendo feita pelo bailarino e coreógrafo João Vicente, que busca recursos no corpo dos atores a partir das observações cotidianas e vivências em Palmas. Militantes de teatro e dança no setor educacional do Município que são, os artistas-intérpretes-criadores vivenciam as expectativas, carências, frustrações e conquistas nos setores das artes e da educação local. Também a preparação corporal está sendo calcada nas próprias emoções e estranhamento advindos das relações cotidianas desse corpo individual perante o corpo social do dito lugar em processo de formação que abriga pessoas diversas com comportamentos, sotaques e buscas diferentes. Os gostos, o calor, o sol, tudo isso são dados em que os atores-dançarinos estão experimentando.Cada qual, com suas experiências e vivências diferentes, se justapõe no cenário onde o sol aponta bem cedo e obriga as pessoas acordarem. O suor respinga, queima os olhos. A movimentação dos atores, a música, o cenário, tudo isso está sendo construído e tem permitido um estreitamento de relação entre o teatro e a dança. (...)" TRECHO DA PROPOSTA APRESENTADA À FUNARTE ATRAVÉS DA INSCRIÇÃO AO EDITAL PRÊMIO MYRIAM MUNIZ - EM AGOSTO DE 2009 - PROJETO ELABORADO POR ELIENE RODRIGUES DE OLIVEIRA (E.R.O.)

27/01/2010

Para se mudar!

A ESTRUTURA


Na Cena 1, a esposa insatisfeita e o ator chegam na capital tocantinense. Na Cena 2, Jerttson é convidado a trabalhar numa Escola de Teatro. Enquanto está animado com a cidade e observa as pessoas, a sua esposa não se adapta e vai tornando infeliz. Envia cartas para Tatá, uma amiga da sua cidade natal. Na Cena 3, as duas mulheres comunicam animadamente através das cartas, enquanto Jertson continua conversando com as pessoas da cidade e a montar trabalhos artísticos. Ele conhece a cidade através de vivências, ela, comenta suas impressões da cidade, através da própria insatisfação pessoal. Na cena 4, é introduzido uma nova personagem. Amélia, uma velha aposentada que considera o teatro como grande vivência a ser experientada pela humanidade, como formação do homem e não simplesmente como entretenimento. Depois de muitos anos, ela entra no seu ateliê que fedia mofo, poeira e guardados. A professora, o ator se conhecem na estréia de um espetáculo, onde um funcionário público corrupto foi convidado a participar. Os três, nesse primeiro encontro relatam como vieram parar naquela cidade. Na cena 5, a velha conhece a esposa de Jerttson e tenta detectar suas idiossincrasias. Tenta contribuir para que ela se entenda . O profissional corrupto, completamente abandonado e só, no meio do vazio e do silêncio. O ator descobre as cartas e percebe que a insatisfação da esposa era por conta do casamento.




" (...) atravessou o jardim, abriu a porta do ateliê. Veio um cheiro de tintas e poeira. Hesitou, mas só por um instante. O som do nome que ainda ecoava nos seus ouvidos a encorajou. Sentia-se ungida e, e pela primeira vez, entrou naquele lugar sem a presença de algum dos filhos. Parada, olhava para todos os lados e um sorriso desenhou seus lábios. Parecia estar confortada. Cantarolando bem baixinho, Amélia perpassou por todos os cantos do ateliê e a cada objeto encontrado o acariciava. Organizou alguns pincéis que estavam espalhados sobre o balcão. Abanou a poeira das telas penduradas na parede. Dirigiu-se a prateleira de pátina creme. Soprou o pó que cobria uma caixa de papelão. Abriu. Inúmeros esboços. (...)"

E.R.O (nov/2006)

26/01/2010

O Projeto...

da peça que se previu...Prevê!



CENAS
Cena 1 -
Cena 2 -
Cena 3 -
Cena 4 -
Cena 5 -

*04 personagens


BASEADA EM DOIS CONTOS DE MESMO AUTOR:

DIA DE ESTRÉIA (E.R.O)
AMÉLIA (E.R.O)


SINOPSE
Jerttson, ator famoso esquece o texto na estréia de um espetáculo.Improvisa. Grande sucesso. Apenas o diretor é reconhecido. Muda-se para Palmas-TO. A falta da identidade do lugar o instiga a observar o cotidiano das pessoas. Natividade, sua esposa, não se adapta. Infeliz, começa a trocar cartas com amigas da sua cidade natal. Conhecem a professora Amélia e o corrupto funcionário público, Marcílio. Através do conhecimento dos casais e das trocas de cartas, revelações sobre a cidade surgem.


EQUIPE

04 atores -
01 diretor -
01 assistente de direção -
01 dramaturgo -
01 coreógrafo -
01 figurinista -
01 cenógrafo -
01 cenotécnico -
01 iluminador -
01 músico -
01 gestor cultural -
01 produtor -
01 assistente de produção -
01 assessor de comunicação -
01 redator -
01 diretor de arte gráfica -
01 produtor de audiovisual -
01 fotógrafo -



"...Era dia estréia...Dia de desafios. De viver outras vidas. Terrível para os racionais. Ia representar dois papéis. Uma menina descalça e um homem de sapatos."

E.R.O (mar/2005)